DOIS POEMAS Pássaro em pranto Nada quero que não seja meu, nada desejo que não me pertença, mas quero fazer diferença, pois tentaram colocar em meus lábios palavras que jamais falei, e na minha mente ideias que nunca pensei. Me trouxeram, arrastado, pelos mares, me lançaram solitário nas cafuas, tiraram dos pés o meu chão. Respirei, nos porões, fétidos ares, me entretiveram com as suas gruas no alto dos prédios em construção. Carreguei nas costas peso maior do que o meu, perdi a identidade enquanto estive cativo, em trabalhos forçados, sem pão nem abrigo, até a minha etnia se perdeu, então, para ainda permanecer vivo precisei correr mais do que quem corria comigo. Fiz roçado para abastados fazendeiros, derramaram meu sangue no solo das senzalas, minha mãe chorou sem ter herdeiros, no pelourinho tentaram prender a minha fala. Mas a minha voz não se calou e o meu pensamento despertou outras vozes, que ressoaram um canto, que até mesmo o pássaro em pranto um novo canto entoou. Me escuta S...
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