DOIS POEMAS * Adelgicio Ribeiro de Paula/SP

DOIS POEMAS
Pássaro em pranto


Nada quero que não seja meu,
nada desejo que não me pertença,
mas quero fazer diferença,
pois tentaram colocar em meus lábios
palavras que jamais falei,
e na minha mente ideias que nunca pensei.
Me trouxeram, arrastado, pelos mares,
me lançaram solitário nas cafuas,
tiraram dos pés o meu chão.
Respirei, nos porões, fétidos ares,
me entretiveram com as suas gruas
no alto dos prédios em construção.
Carreguei nas costas peso maior do que o meu,
perdi a identidade enquanto estive cativo,
em trabalhos forçados, sem pão nem abrigo,
até a minha etnia se perdeu,
então, para ainda permanecer vivo
precisei correr mais do que quem corria comigo.
Fiz roçado para abastados fazendeiros,
derramaram meu sangue no solo das senzalas,
minha mãe chorou sem ter herdeiros,
no pelourinho tentaram prender a minha fala.
Mas a minha voz não se calou
e o meu pensamento despertou outras vozes,
que ressoaram um canto,
que até mesmo o pássaro em pranto
um novo canto entoou.


Me escuta

Se a minha palavra é como osso,
peço, por favor, me escuta,
porque perdi alguns versos na luta,
Mas ficar calado não posso.

Talvez eu incomode bastante
por algum desses motivos,
um deles é por estar vivo,
os outros seguem adiante:

O lugar que ocupo te revele
Que eu o fiz por merecer,
Porque sei ler e escrever,
Pela cor da minha pele.

Porque hoje sou livre da escravidão,
Porque posso sorrir e sonhar
E por saber ir e voltar
Sem precisar da tua permissão.

Então, por favor, me escuta,
Não se sinta incomodado,
Só não posso mais ficar calado,
Já perdi alguns versos na luta.


DADOS DO AUTOR

Adelgicio Ribeiro de Paula
Doutor em Educação (UFSCar)
Mestre em Educação (UNINOVE-SP)
Graduação em Educação Física (ESEF-Jundiaí)
Graduação em Pedagogia (UNINOVE-SP)
(11) 99113-3744
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