NEGRITUDE E CONSCIÊNCIA NEGRA * Antologia Poética Negritude

NEGRITUDE E CONSCIÊNCIA NEGRA

LÁGRIMA PRETA


"Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio."

(António Gedeão)
&
A consciência negra e o século XXI

Foi no Brasil colonial
Onde tudo começou,
O negro como serviçal 
Sua vida desmoronou.
Cruelmente maltratado,
Ferido e dominado
Começa a escravidão 
Com rotina degradante
Exposto em seu semblante
Num rito de mutilação

Trabalhando de sol a sol
Nas lavouras e cafezais,
Guiados pelo arrebol
Fazendo serviços braçais.
Presos nas mãos dos tiranos,
Todos negros africanos
Perdia sua dignidade
E durante três séculos
Quebrando seus vínculos
Com toda sociedade

Vivendo em uma cenzala
Comparado com animal,
A dor no seu peito exala
Por ser tratado muito mal.
Debaixo do preconceito,
Tirando o seu direito
Sofria muita humilhação
Pois tinha ínfimo valor
Propagado por seu senhor
Levado a toda nação

O tronco e seus açoites
Estralava em suas costas,
Acontecia todas noites
As carnes negras expostas.
Com o capitão do Mato,
Continuava sua missão
Batendo até a morte
Esfolando seu consorte
Esperando uma confissão

A tirania prosseguia
Pelas ordens do coronel,
A matança progridia
Sem luz no fim do túnel.
O negro assim se espremia, 
Rezando uma ave Maria
Para escapar com vida
Com olhar de piedade
Sentindo a crueldade
Entre Chagas, e ferida

Os anos foram se passando
E chegou a "liberdade",
O risco foi aumentando
Até a atualidade.
Através da alforria,
Mas com toda ironia
As coisas não avançaram
O preconceito continua
O negro morando na rua
Os pactos se quebraram

Luta por uma consciência
Daquele que lhe rechaça,
Com toda experiência
Perseguido como caça.
Apelando pro bom senso,
Vendo que é um consenso
A sua descriminação
Briga com toda sua  força
Esperando com bonança
Por essa miscigenação

Viveu sempre no castigo
Querendo do branco  perdão,
Pra ficar bem consigo
Tirar o mal do coração.
Mostrando seu real valor,
Experiênciado na dor
Não se fez prisioneiro
Também não se guarda rancor
De quem desprezava sua cor
Pra sair do desespero

Esperando um dia ser igual
Nada mais lhe deixar triste,
Quebrando esse ritual
Que por muito se persiste.
O negro tem consciência,
Pautado na resiliência
Por ter sido um sofredor
Criado num cativeiro
Que da flor sentia o cheiro
Da liberdade e do amor

E com seu punho cerrado
Erguido  como símbolo,
Revivendo o passado
Lembrando do seu ídolo.
Saido do "eu" interior,
Como um bom navegador
Mudou toda sua história
Prosseguida por muitos anos
Em verdades e enganos
Esperando sua glória

Este poema se refere ao novembro da consciência negra. Que todos possam ter essa consciência, já que somos iguais...

Por Genildo Mateus
&
 *Negritude*

Não!
Meu cabelo não
É teu espelho

É o retrato
Da minha raça
Tua culpa já 
Não disfarça
Tua atitude 
Desumana 
Tua desgraça

Não!
Meu cabelo
Não é teu espelho!

Minha
Pele negra
Reflete teu abuso
E minha dor
Toda violência
Da tua ganância

Rasgando
A liberdade
Dos meus sonhos
Desde a infância

Esbanjando
Pura maldade
Estruturas
Privilégios da
Sociedade
Que exclui
Minha humanidade

Não!
Meu cabelo
Não é teu espelho!

É testemunho
Da minha beleza
Da minha raça
Da minha nobreza
De ser pessoa
                            Negra!

*_Autor: Iraquitan Palmares_*
*_Brasília-DF
&
POR UMA AUSÊNCIA DE CORES 

Lembro, inconscientemente, lembro,
Segundo ano primário,
"Caso fosse eu, filho primogênito,
Caso fosse eu, filho único",
Talvez estranhasse.

Não, mais de seis décadas depois,
Uma frase daquele ano, 
Ainda toma de assalto meu dormir.

"Negrinha do catimbó",
Confesso, a sessenta e cinco anos atrás,
Posso até a ter, repetido.

De onde a frase veio,
Um lápis de cor preto, na caixa de lápis de cor,
O único lápis do primeiro ano, era preto,
Porque, um lápis preto,
Na caixa de lápis de cor?
Não ouso sessenta e cinco depois,
Repetir a frase, da carteira de trás,
"As carteiras escolares" ainda eram duplas,
A sala, ao contrário do primeiro ano,
Era mista.

O dia treze de maio era de crítica,
À princesa Isabel,
Lei áurea, na justificativa.

Na física, o preto é a ausência da cor,
Na minha "desformação" pessoa de cor,
Nos filmes de Hollywood, 
"Colored", o lápis de cor,
Nunca pintou para ninguém, a consciência.

Anesino Sandice

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